O que é o tempo? Se ninguém pergunta isso, eu não me pergunto, eu o sei; mas se alguém me pergunta e eu quero explicar, eu não o sei mais.
(Agostinho de Hipona)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Primavera Árabe na visão de Eric Hobsbawm:

O ano de 2011 foi um ano que, com certeza absoluta, entrou para a historiografia como um período bastante importante, tanto no âmbito político, militar e religioso quanto no social, trabalhista e econômico. Entretanto, um dos eventos mais intrigantes e conflituosos de nosso ano, de grandes e esparsas proporções, chamou a atenção de um dos maiores intelectuais ainda vivo, o mais importante historiador ainda em atividade, o britânico marxista Eric J. Hobsbawm: a Primavera Árabe. Vamos ver o que ele tem a dizer:

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Para Hobsbawm, protagonismo da classe média marca revoltas de 2011
Andrew Whitehead
Do Serviço Mundial da BBC
Atualizado em 23 de dezembro, 2011 - 15:40 (Brasília) 17:40 GMT

Em entrevista à BBC, o historiador marxista nascido no Egito, mas radicado na Grã-Bretanha, afirma ainda que a classe operária e a esquerda tradicional - da qual ele ainda é um dos principais expoentes - estiveram à margem das grandes mobilizações populares que ocorreram ao longo deste ano.
''As mais eficazes mobilizações populares são aquelas que começam a partir da nova classe média modernizada e, particularmente, a partir de um enorme corpo estudantil. Elas são mais eficazes em países em que, demograficamente, jovens homens e mulheres constituem uma parcela da população maior do que a que constituem na Europa'', diz, em referência especial à Primavera Árabe, um movimento que despertou seu fascínio.
''Foi uma alegria imensa descobrir que, mais uma vez, é possível que pessoas possam ir às ruas e protestar, derrubar governos'', afirma Hobsbawm, cujo título do mais recente livro, Como Mudar o Mundo, reflete sua contínua paixão pela política e pelos ideais de transformação social que defendeu ao longo de toda a vida e que segue abraçando aos 94 anos de idade.
As ausências da esquerda tradicional e da classe operária nesses movimentos, segundo ele, se devem a fatores históricos inevitáveis.
''A esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso não é mais possível'', diz Hobsbawm.
Hobsbawm comenta que as diversas ocupações realizadas em diferentes cidades do mundo ao longo de 2011 não são movimentos de massa no sentido clássico.
''As ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os 99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os famosos 'exércitos postiços', formados por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso.''

À sombra das revoluções

Hobsbawm passou sua vida à sombra - ou ao brilho - das revoluções.
Ele nasceu apenas meses após a revolução de 1917 e foi comunista por quase toda a sua vida adulta, bem como um autor e pensador influente e inovador.
Ele tem sido um historiador de revoluções e, por vezes, um entusiasta de mudanças revolucionárias.
O historiador enxerga semelhanças entre 2011 e 1848, o chamado ''ano das revoluções'', na Europa, quando ocorreram uma série de insurreições na França, Alemanha, Itália e Áustria e quando foi publicado um livro crucial na formação de Hobsbawm, O Manifesto Comunista, de Marx e Engels.
Hobsbawm afirma que as insurreições que sacudiram o mundo árabe e que promoveram a derrubada dos regimes da Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, ''me lembram 1848, uma outra revolução que foi tida como sendo auto-impulsionada, que começou em um país (a França) e depois se espalhou pelo continente em um curto espaço de tempo''.

Historiador diz que revoluções no mundo árabe tomaram rumo inesperado
Para aqueles que um dia saudaram a insurreição egípcia, mas que se preocupam com os rumos tomados pela revolução no país, Hobsbawm oferece algumas palavras de consolo.
''Dois anos depois de 1848, pareceu que alguma coisa havia falhado. No longo prazo, não falhou. Foi feito um número considerável de avanços progressistas. Por isso, foi um fracasso momentâneo, mas sucesso parcial de longo prazo - mas não mais em forma de revolução''.
Mas, com a possível exceção da Tunísia, o historiador não vê perspectivas de que os países árabes adotem democracias liberais ao estilo das europeias.
''Estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis - uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos.''


Fonte secundária: Blog do cientista político e pesquisador brasileiro Antonio Lassance

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sofrimento, preconceito e ignorância

É cabível nesta página de jornal, dentro desta pequena coluna, eu tentar discorrer sobre o passado da humanidade, já intacto – pois, evidentemente, ele já passou. Um influente e bastante conhecido filósofo chinês, Confúcio, disse certa vez: “Para entender o futuro, estude o passado”. E é exatamente o que eu tento fazer dia após dia. Toda manhã, quando pego o jornal, mergulho nos conflitos do Oriente Médio, nos escândalos de pedofilia provocados padres e bispos, nas alianças políticas da América Latina e na tão temida crise financeira que devasta como um tsunami a economia global. Conseqüentemente, recorro para os livros de História, para os filósofos da Grécia Antiga, os clérigos do medievo, artistas da renascença e historiadores da época moderno-contemporânea. Será que, neste meio tempo, irei compreender um pouco mais de meu tempo presente e de meu futuro próximo? Talvez sim, talvez não. Interiormente, o sentimento é de temor. Seguindo a linha de raciocínio de um dos maiores pensadores da nossa era, o historiador marxista Eric Hobsbawm, eu lhes pergunto francamente: Para onde estamos indo?

A sociedade e todo o “sistema” brasileiro e mundial já estão corrompidos – sejam nos moldes financeiros, políticos, sociais ou até mesmo morais. Cada vez os ricos ficam mais ricos, e os pobres ficam mais pobres. As guerras em busca do poderio militar e econômico devastam famílias, culturas e crenças. Sonhos são despedaçados. Muçulmanos se tornaram terroristas, cristãos se tornaram os detentores da verdade e da paz mundial. Será mesmo? Não existe nenhuma preocupação com o meio ambiente; as conferencias mundiais sobre o clima – que esquenta de ano em ano – são totalmente esquecidas pela mídia. Uma mídia controladora, manipuladora e alienante. Os programas televisivos perderam toda sua qualidade, mas será que um dia a tiveram? Vozes como a de Frank Sinatra, Chico Buarque, Tom Jobim e Ray Charles foram violentamente caladas, dando lugar para pequenas aberrações pré-fabricadas. O mundo escuta, o mundo dança. Os ouvidos sangram, os pés doem. O respeito sexual, racial e, principalmente, a liberdade religiosa foram perdidos, submersos em uma civilização cada vez mais preconceituosa e pseudo-tradicionalista. O continente europeu afunda economicamente, a África clama por comida, a ONU vomita incompetência e desinteresse, e enquanto isso, a Santa Igreja de Roma se torna cada vez mais profana, fechada e imoral – sem contar nos templos protestantes que se tornaram pequenos bancos detentores da “verdade absoluta”. Uns suplicam pela verdade, já outros são silenciados pelo poder – ou como diria Charles Loyseau, jurista parisiense do século XVII, silenciados pelo “aparelho de Estado”. Drogas, assassinatos, mentira, ganância, guerras, ignorância. Uns manipulam e outros são manipulados, uns dão gargalhadas e outros choram em desespero. Até quando?

Não é questão de ideologia, de esquerda ou de direita, de ser comunista ou capitalista. É questão de ser humano, justo, fraterno. Lembrem-se: Roma caiu. Mas esse grande império não caiu por causa da violenta invasão bárbara germânica de 476 d.C. como os livros didáticos tentam, incansavelmente, mostrar. A anarquia militar, social e política já assolavam o Império Romano desde os tempos do imperador Constantino I, o Grande. Agora eu lhes pergunto: Futuramente, os livros didáticos poderiam mostrar a “Queda da Civilização Humana”? Eric Hobsbawm já nos deu uma dica: Nós estamos entrando na era do “Declínio Norte-Americano” – das crises, conflitos e de um enorme sofrimento. Por fim, um grande poeta irlandês do século passado, William Butler Yeats, escreveu certa vez: “A maré, turva pelo sangue, foi liberada, e, em toda parte, a cerimônia da inocência nela se afoga. Os melhores perdem a convicção, enquanto os piores estão repletos de entusiasmo”. É, isso te lembra alguma coisa? Foi o que eu pensei.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Totalitarismo Católico

Utilizo em meu artigo o título da obra do jornalista Emilio Corbière, graças ao seu grande grau de impacto literário.

Muitos são os filmes e os teóricos da conspiração que tentam desbancar a Opus Dei, sociedade secreta internacional de cristãos católicos ultraconservadores, mas são poucos os que conseguem fundamentos concretos para tais afirmações mirabolantes. Entretanto, diferentemente das pregações alienantes da Igreja Católica, a Opus Dei é uma ordem movida pela política, pelo poder e, principalmente, pelo dinheiro – o que não chega a ser muito diferente da Santa Sé. Foi fundada em 1928 pelo padre espanhol, José Maria Escrivá de Balaguer y Albas e “santificada” em 1950 pelo pontífice Pio XII – o mesmo que foi complacente com as atrocidades cometidas pelo governo nazista durante a II Guerra. Anos mais tarde, em seu duradouro pontificado, o papa João Paulo II elevou a ordem à prelazia pessoal, sendo assim, agora ela não seria comandada por ninguém da cúpula romana e possuía o estatuto de diocese, relacionando-se apenas com o papa.

O que nós temos que ter em mente quando falamos da Opus Dei (em latim, “Obra de Deus”) é que a mesma é apenas mais um dos tantos “tentáculos” do Papado para atingir certas parcelas da sociedade – tanto em moldes econômicos quanto políticos. “A Opus Dei congregação é uma mistura de empresa religiosa e capitalista”, afirma o autor do livro “Opus Dei e o Totalitarismo Católico”, Emilio J. Corbière. Um banco. E um banco que não é abalado nem pela crise financeira mundial e nem pelos constantes ataques midiáticos. Porém, vamos nos concentrar no fundador da ordem por um momento: José Maria Escrivá. “Preocupado com o avanço das esquerdas no país, este excêntrico religioso, visto pelos amigos de batina como um fanático e doente mental, decidiu montar uma organização ultra-secreta para interferir nos rumos da Espanha”, afirma o jornalista e analista político Altamiro Borges em seu artigo “Opus Dei – Os Tentáculos da Seita no Brasil”. Conservador e direitista, Escrivá atacou as mudanças na liturgia e nos dogmas católicos provocados pelo Concílio do Vaticano II. Um concílio que aproximava, teoricamente, a Igreja do fiel. A relação “Papado-Opus Dei” sempre foi muito forte e intensa, gerando ataques e críticas de diversos setores da Igreja e da sociedade – principalmente pela rápida santificação do fundador da ordem pelo controverso João Paulo II.

Em 1936 estoura a Guerra Civil Espanhola, e mais tarde o general Francisco Franco dá um golpe de Estado com a ajuda do exército e, ideologicamente, de José Maria Escrivá – um grande aliado dos partidos fascistas e direitistas. Política seria a relação que, futuramente, Escrivá e Franco teriam. Com isso, a Opus Dei foi mantida para apoiar a ditadura de Franco, de 1952 em diante. Atualmente, existe uma óbvia influência sobre o governo do Partido Popular de ideologia conservadora e reacionária. Para o mundo, a Opus Dei é um organização santa de pessoas que almejam, dia após dia, entrar em contato com Cristo e com o seu Pai – até mesmo pela auto-flagelação. No entanto, tirando famílias laicas de adeptos conservadores, seus membros são banqueiros, políticos, empresários e executivos. Nos é sabido também que a Opus Dei está enveredada nas malhas da política externa, é detentora de universidades e empresas mundo a fora, controla diversos meios de comunicação – além de censurá-los –, e detém um poderio financeiro abismal. Fontes seguras afirmam que a “Santa Máfia”, como também é chamada, possui aproximadamente 400 bilhões de dólares em seus cofres – o que também não se difere muito do Papado, que possui quase 316 milhões, sem contar com a fortaleza de ouro e mármore que é a Basílica de São Pedro.

Bem, como eu disse anteriormente, a Opus Dei é movida pelo poder, pela política e pelo dinheiro. E na podridão dos bastidores dessa rede religiosa ultra-secreta, uns manipulam e outros são manipulados – da forma mais cruel e indigna possível.